terça-feira, 4 de abril de 2017

Minha criança não sai da frente do computador



É constante a preocupação de pais e educadores com a permanência das crianças na frente de um computador ou dispositivo qualquer. Fala-se nisso demais e eu mesmo já tratei esse tema em um artigo encaminhado aos pais. Contudo, proponho aqui um aprofundamento na discussão. Esse comportamento é mesmo prejudicial para as crianças e adolescentes? Em que sentido? Qual deve ser a atitude dos pais? Vamos construir um raciocínio capaz de elucidar esses questionamentos. Para tanto, estarei me baseando em “olhares” psicanalíticos a respeito do tema.
Eu faço uso constante dessa tecnologia em minha vida. Utilizo o computador para trabalhar, escrever e mesmo para me comunicar com a família que hoje está fora. Utilizando-se de meu smartfone, acesso as redes sociais, consigo a transmissão de imagens e conversas com todos em tempo real. É uma maravilha. De certa forma, eu assumo que estou exposto a um tempo enorme à frente das tecnologias e nas redes sociais, me beneficiando de tudo de bom que posso usufruir. Em meu caso particular, utilizo toda essa ferramenta em benefício do meu trabalho e minha comunicação. Portanto, para mim, o computador em si é apenas um instrumento que pode ser usado de maneira saudável. Então a pergunta é: o que torna o uso do computador prejudicial? A resposta depende do número de horas em que a criança ou adolescente passa na frente de uma tela, roubando o tempo das atividades que são necessárias ao bom desenvolvimento físico e social, bem como ao bom desempenho escolar. Se a criança ou jovem deixa de brincar, praticar esportes, ir ao cinema, ler um livro, estudar etc, por estar exageradamente “enfiado” em uma tela de computador ou qualquer dispositivo, aí sim temos um grande problema. Se ele ou ela está demasiadamente se relacionando com pessoas no mundo virtual, criando fantasias com a imaginação ou mesmo deixando de lado o mundo real para viver o mundo virtual, aí temos um enorme problema instalado.
Um perigo muito grande é a criança e o jovem começarem a viver um descompasso entre o mundo real e o virtual. As fronteiras entre as duas realidades podem se tornar confusas e aleatórias. Isso é um problema, pois quanto menor for a maturidade do usuário, mais real ele achará o mundo virtual. Tudo em suas mãos, via internet. Isso quer dizer que, para alguns, viver o mundo virtual pode então ser mais interessante do que viver o mundo real. Mais rápido, mais sofisticado e mais interessante. Os encantos das redes sociais faz de qualquer um, uma pessoa popular, cheia de amigos envolvidos em momentos deliciosos com postagens que só mostram lugares lindos e festas. Reparem o perigo... O mundo virtual nos leva a um mundo de felicidade. Não há cobranças ou limites, como no mundo real. Tudo é extraordinário. Pode se comprar, assistir a um show, baixar músicas, jogar, conhecer parceiros e parceiras, postar ideias... tudo é possível. Esse mundo é mais sedutor e gostoso de se viver. Para as crianças e jovens a sensação de estarem em um mundo real quando acessam a internet é muito grande. Aos poucos, ele vai se alienando do mundo real e se isolando dele.
A expressão extremada da existência virtual é o site Second Life, em que os usuários podem mesmo construir uma nova vida, uma nova identidade (nickname), com perfil de personalidade nova. Pense no tamanho do problema... aqui eu tenho a desconstrução de uma personalidade real e a construção de uma personalidade virtual desejada. No campo psíquico, o descompasso do que é vivido na realidade e o que é criado no virtual, cria desvios que levam a mente humana a trabalhar mais próxima do funcionamento psicótico, com uma possível sensação de onipotência e uma tendência ao isolamento narcísico. Claro que tudo isso nos leva a entender que precisamos, sim, limitar aos filhos a utilização excessiva dessa maravilha. Fala-se hoje no surgimento de novas doenças, as ligadas às tecnoneuroses. Então, há perigo e nós devemos estar atentos. Devemos estar atentos ao isolamento deles, a falta de vontade de brincar e se relacionar socialmente. Precisamos dialogar para vermos se estão vivendo em um mundo paralelo ou estão conosco no mundo real. Precisamos estar atentos para não perdermos os nossos filhos para essa virtualidade, pois há perigos ocultos que envolvem sedução e mentiras nas redes sociais. O mundo virtual possui encantos que podem levar os perigos a todos, inclusive os que nem ainda ouvimos falar, perigos silenciosos que operam em nossa mente.
Para você conhecer mais o que tem sido discutido sobre a vida de nossos filhos e tudo o que envolve o seu psíquico, eu sugiro a leitura do livro “Perguntas a um Psicanalista”. Ele foi escrito por Roberto Girola e editado pela editora Ideias Letras.


terça-feira, 28 de março de 2017

E a tal motivação...



Ouço e leio muito sobre a importância da motivação. No mundo corporativo, na escola, nas possibilidades de sucesso, em todos os aspectos. De certa forma, reproduzo o que leio e tento buscar sempre a motivação. Procuro motivar os professores, os colaboradores e os alunos e alunas, acreditando na força dessa motivação. Contudo, os anos de experiência e a constante autocrítica que não me deixam relaxar, me levaram recentemente a uma reflexão que desejo compartilhar. Sabemos mesmo motivar as pessoas? Estamos atentos a cada um, quando buscamos motivá-los? Estamos buscando corretamente a nossa motivação? Ora, saber motivar é fundamental para quem está educando, seja os pais em casa ou os educadores na escola.
O problema ao se tentar motivar as pessoas é: ninguém sabe motivar de fato. É exatamente por essa razão que a indústria de livros de autoajuda, de palestras fabulosas com conselhos mágicos e receita de sucesso estão na moda. É muito difícil de explicar e mesmo medir o que nos incentiva. Na verdade, tipos diferentes de personalidade reagem a motivações diferentes. Além disso, devemos considerar também que a motivação é mais interna do que externa. Dessa forma, encontra-se em nós e não no outro. Mas como descobrirmos isso? Vou insistir na tese do diálogo, da escuta e da aproximação. Ajudar alguém a se encontrar e se motivar depende e muito do conhecimento que temos desse alguém. Às vezes, nós pais e educadores, encontramos dificuldades em conhecer as nossas crianças e adolescentes. Até porque buscamos motivá-los, a partir de valores e desejos que são nossos e não deles. É comum, buscarmos a nossa realização no sucesso de nossos filhos ou o que nós atribuirmos ser o sucesso. Já procurou se permitir a escutar seus filhos para ajudá-los em suas buscas?
Muito bem... se a motivação depende também de fatores internos, inerentes a cada um de nós, ela está em nós. Para conhecê-la e tê-la como fator de impulso positivo na vida, precisamos tomá-la como de fato nossa. É aí que entra a questão do autocontrole, a força de vontade e a busca por metas que nos trarão a felicidade que buscamos.  Mas, isso não quer dizer que não podemos mudar a motivação de uma pessoa. Podemos sim e pode ser surpreendentemente fácil! Não pense que está na recompensa ou na bonificação. Pesquisas revelam que a premiação não é o fator decisivo para a motivação. O bom resultado está mesmo relacionado com determinação, autocontrole, entusiasmo, inteligência social, gratidão, otimismo e curiosidade. São sentimentos ligados ao caráter de cada um de nós. Assim, se educarmos pensando nessa base de sustentação, estaremos motivando os nossos filhos e alunos e também oportunizando a eles a busca pelos desejos internos de sua realização. O segredo está no caráter. Respeito à diversidade, tolerância, capacidade solidária de ajudar os outros são valores que acionam o “botão da motivação”, pois garantem autoconfiança. Pessoas seguras são motivadas e motivadoras. Ensinar a elas que a possibilidade real de fracasso, no que tentamos, é real na vida de cada um. Precisamos que saibam que em uma empreitada de alto risco, seja no mundo dos negócios, nas artes, nos esportes, as chances de derrota são grandes e que o sucesso vem com os erros e com as novas tentativas. Isso é motivação e também caráter! Dessa forma, motivação tem, sim, um forte relacionamento com caráter.
No que se diz respeito à motivação, caráter é tão importante quanto a disciplina. Somente uma pessoa disciplinada e de caráter encontrará forças para tentar de novo e se superar. Essa força é o que se denomina motivação. Portanto, não precisamos de palestras fantásticas e livros de autoajuda com receitas de motivação. Precisamos dar aos nossos filhos valores para eles encontrarem força e vencerem os desafios. Isso é motivação.
Se você se interessou pelo tema e deseja saber mais, aconselho a leitura do livro “Uma questão de Caráter”, de Paul Tough. Ele fala o que devemos buscar para proporcionarmos uma educação de futuro para os nossos filhos. A Editora Intrínseca foi quem editou o livro, com a tradução de Clóvis Marques. Tenho certeza que você irá adorar!         


sexta-feira, 10 de março de 2017

As crianças de hoje têm um cérebro igual ao cérebro das gerações passadas?



Segundo alguns especialistas contemporâneos, os cérebros das crianças e adolescentes de hoje em dia, estimulados que são por toda “tecnologia internética”, são mais rápidos do que os cérebros das crianças e dos adolescentes do passado. Os estímulos provocados pelos jogos eletrônicos, a exposição midiática e toda evolução tecnológica dos dispositivos disponíveis no mercado provocaram uma aceleração das atividades cerebrais. Neste mundo tecnológico, crianças e adolescentes convivem com personagens maravilhosos, belos, fortes, corajosos e sensacionais que são capazes de ofuscar a imagem de pais e educadores. A exposição midiática e os jogos eletrônicos têm sido tão grande, que é comum crianças e adolescentes apresentarem algum tipo de distúrbio emocional ou comportamental. A neurociência chega a afirmar que a ansiedade gerada, provoca uma certa dependência, levando a necessidade de buscar novos estímulos.
Assim, como a escola e mesmo a família vai perdendo espaço para o mundo dos jogos e da mídia, fica claro entendermos o tamanho do abismo que vai se formado e claro o desinteresse por esses ambientes. Essa tem sido uma realidade, principalmente em crianças e adolescentes, que não são disciplinados no uso de seus dispositivos. Famílias, com dificuldades de dizer não aos filhos, têm deixado eles horas e horas expostos aos encantos dessa tecnologia. Qual o problema disso? Sequelas enormes, principalmente nas relações interpessoais e na valorização dos pais e professores. Para eles, nós nos tornamos desestimulantes, cansativos e repetitivos. Ultrapassados e lentos. Estamos assim sem cor, sem termos a linguagem deles. Isso é um enorme problema.
Claro que o contexto é complexo e polêmico, mas nem tudo está perdido. Precisamos tomar a frente, conhecer as linguagens modernas, melhorar a comunicação e o relacionamento com as nossas crianças e adolescentes e valorizar os momentos com eles. Precisamos tomar consciência de que os avanços são importantes para nós e que não dá para fugir da evolução. A própria escola tem ido ao encontro de novas linguagens de comunicação com os alunos. Temos procurado estar mais próximos das novas tecnologias, incorporando-as ao nosso projeto pedagógico. Mas, mais do que isso, estamos atentos às múltiplas linguagens de expressão de cada um, visto que elas estão conectadas com o mundo contemporâneo em que vivem as nossas crianças. Por isso, convido-os à quebra de paradigmas. Precisamos estar conectados ao novo tempo. Tudo muda e vem mudando. Precisamos estar abertos a isso ou perdermo-nos com a ilusão de que os valores do passado eram melhores. Cada tempo tem os seus valores e os nossos valores serviram para a nossa geração.
Precisamos nos atualizar como pais e educadores. O abismo não pode ser tão grande. Estamos certos da necessidade de um novo modelo de educação que já vem nascendo com força. Precisamos saber que os nossos filhos necessitam de ambientes que garantam o desenvolvimento de suas múltiplas inteligências e para tanto se faz necessário uma nova forma de comunicação. Isso, em casa e na escola. Esses cérebros agitados necessitam de novos modelos e, até para receber o nosso não, precisamos ter maneiras contemporâneas de comunicação. Os estímulos, o diálogo franco e a proximidade que garantem um conforto emocional, são fundamentais para o nosso sucesso. Embora modernos e ágeis, são crianças e jovens que necessitam estar acolhidos emocionalmente e seguros em sua caminhada. Essa segurança e essa acolhida encontramos no seio da família e nas trocas que acontecem na escola. Contudo, é na família que o amor irá ser a ferramenta mais importante na formação de nossas crianças e jovens. Portanto, temos aí os papéis da Escola e também da Família. Absolutamente em momento algum podemos inverter esses papéis. Igualmente é necessário supervisionar os filhos, exigindo que cumprem as suas obrigações escolares. É importante que saibam sempre que estudar é fundamental para as suas vidas e que o conhecimento transforma as pessoas. Muito importante essa consciência. Vale também ressaltar que, se faz importante dar autonomia aos filhos para que possam se expressar, lerem o mundo e por ele serem lidos. Superproteção não tem sido hoje o melhor caminho para que as nossas crianças possam se desenvolver de maneira saudável e confiante.


segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Vivemos em um mundo sem limites?


“Somente alguém que possa sondar as mentes das crianças será capaz de educá-las e, nós, pessoas adultas, não podemos entender as crianças porque não mais entendemos a nossa própria infância”. (Freud, 1913b:224)


Vivemos em um mundo cuja educação tem sido marcada por profundas modificações ocorridas em todos os campos. A política educacional tem sido gravemente afetada pelas acomodações do sistema capitalista, afetando a dinâmica nas escolas, nas relações entre os familiares e a escola, e mesmo entre os professores e os alunos. De maneira mais específica, tem acontecido em nossa cultura mudanças comportamentais que têm impactado na escola e também nas famílias.  Assim como a família, a escola vem perdendo autoridade, pois os valores vêm sofrendo mutações e os professores têm sido colocados no mesmo patamar que as crianças. Em família, a situação é similar. Crianças se colocam no mesmo patamar dos pais e, a título de uma “educação contemporânea e liberal”, o que temos é geralmente a perda de autoridade dos pais. As crianças, sem a referência da autoridade, crescem acreditando que podem tudo, que não precisam de limites e que sabem o que desejam na vida. Resultado disso? Indisciplina, desrespeito e desorganização social. O que existe para orientar essas crianças? Qual o modelo que seguirão? Será que vivemos em um mundo sem limites?
Vivemos em um mundo do consumo e os excessos se tornam preponderantes. Aí temos um cenário assustador. Crescem os laudos de hiperatividade, angústias, depressão etc. A ciência tenta encontrar medicação para solucionar as patologias, as famílias ficam assustadas e a escola acaba recebendo uma carga maior do que originalmente seria a sua missão. Crescem as diferenças e os educadores necessitam se adequar, e a escola a se reinventar. Muitos pais, simplesmente, preferem não tomar ciência do problema e culpam a escola que, por sua vez, atribui a responsabilidade às famílias. A criança fica no meio dessa situação.... Isso acontece em todo o mundo, pois é um fenômeno desse mundo líquido que estamos vivendo. Os pais estão cedendo aos desejos de consumo dos filhos e não estão conseguindo colocar limites. Como encontrarmos o equilíbrio em um sistema globalizado que apregoa um mundo sem fronteiras, exigindo qualidade total, eficácia e sucesso a qualquer preço?
Sempre no início do ano letivo, me dirijo a minha comunidade escolar para buscarmos um entendimento acerca das práticas necessárias para que, juntos, possamos construir um caminho que nos oportunize a construção de pontes que unam escola e famílias, para que possamos nos encontrar em um único ponto: a formação de nossas crianças. Para que isso aconteça, se faz necessário um quesito essencial: a confiança! Sem isso, não teremos um diálogo franco e saudável. A escola e a família somente conseguirão o sucesso junto às nossas crianças se fizermos juntos. Estabelecer laços de confiança e seguir as orientações da escola, é a certeza de que acertaremos. Claro que o tempo todo, nós e a família, teremos que buscar uma afinação única. É essa sintonia que garante a base da formação de nossas crianças. Jamais poderemos estar nos opondo e nos desacreditando. Esse embate gera desconforto e incertezas. Por isso, sempre convido os familiares que se aproximem das educadoras e educadores, coordenadoras e coordenadores e das nossas orientadoras. São eles os condutores da vida escolar de seus filhos. São eles os parceiros para a educação de nossas crianças. Por isso, são amigos e profissionais habilitados e competentes para resolverem tudo o que pode parecer ou mesmo ser uma lacuna entre nós escola e você família. Queremos o diálogo, a escuta, apostando um a um, na singularidade de cada sujeito que é aluno de nossa Escola. Queremos você conosco, para juntos oferecermos o melhor para as nossas crianças.
Nossa experiência na Escola é dessa ordem. Estamos interessados em cada um, em cada aluno e em sua história em particular, promovendo laços e garantindo um funcionamento de rotina e aprendizagem dos conteúdos. Somos assim, humanos, pais e mães, profissionais, educadores e carregamos também a nossa história de vida. Somos Escola e Família, Mestres e Aprendizes. O que precisamos é de você conosco para que possamos completar a nossa essência.

         

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

O medo no mundo da infância e da adolescência



Podemos dizer que crianças e adolescentes e mesmo os adultos, apresentam inúmeros medos em momentos de suas vidas. Alguns são normais, enquanto outros podem ser exagerados. Nós, pais e educadores, devemos estar atentos a essas manifestações de insegurança. Medo em excesso gera comportamento agressivo e também provoca estresse.
O medo normal é saudável e pode ser entendido como uma forma de defesa inconsciente dos perigos do cotidiano. Cabe ainda salientar que o medo é também cultural. Algumas culturas difundem o medo através de contos de fada e folclore e até mesmo pela religião, ensinando a temer as coisas do mal. Assim, convivemos com o medo. Ele faz parte de nossa formação e de nossa história. Crescemos alertados pelos pais a respeito dos perigos da vida e dos cuidados que devemos ter com as pessoas, que contribuem e muito para que o medo se instale. Há também o medo que as crianças assimilam dos próprios adultos, como por exemplo medo de injeção, dentista, polícia, barata, cobra, cão etc. Esse medo herdado vem do convívio e da insegurança dos adultos que acabam sendo assimilados pelas crianças.
Como devemos tratar o medo de nossas crianças e adolescentes, de forma a não os transformar em um grande problema psíquico? Bem segue aqui algumas dicas importantes:

1. Precisamos de levar a sério o medo revelado pela criança ou adolescente. Esse medo vem deles e, portanto, para eles, não se trata de uma bobagem. É medo e é real. A simples banalização e a não consideração do que está sendo apontado em nada ajuda;
2. O cuidado é essencial e a sensação de proteção também, principalmente se esse medo vem de algum trauma sofrido;
3. Caso o medo esteja associado a sintomas ou mesmo a comportamentos como fazer xixi na cama, sudorese etc., deve-se procurar sim a ajuda de um profissional da área da psicologia;
4. O diálogo aberto é fundamental para que a criança saiba diferenciar o que é real e o que é imaginário;
5. Respeitar o medo do escuro e deixar alguma luz acesa para dar segurança é fundamental para ajudar as crianças e adolescentes a vencerem o medo;
6. Ensine seu filho ou filha a se acalmar diante do medo e leve-os a desenvolver a percepção do real, mostrando que não existe aquilo que está gerando o medo;
7. Distrair a criança com humor e com histórias alegres e suaves é importante na hora da manifestação do medo. Isso ajudará a superação;
8. Mostre para a criança que você se preocupa com esse sentimento manifestado e que está com disposição de ajudá-la a superá-lo;
9. Nunca reprima ou censure a criança ou adolescente por estar com medo. Como disse, o medo é real para quem está com esse sentimento;
10. Dialogar sobre a vida e a morte e ir mostrando que viver e nascer são parte da vida, ajuda a entender o sentido da vida.

Com o passar do tempo, as crianças e adolescentes conseguem superar os seus medos ou passam a lidar com eles. O importante é que no processo do seu desenvolvimento, pais e educadores estejam cientes de que ajudar a superá-los também é um trabalho cuidadoso e fundamental para que todos cresçam seguros e prontos para a vida. Os medos, quando bem trabalhados não impactam negativamente, mas sim positivamente. Saber superar os medos é um aprendizado importante para que nossos filhos cresçam em condições de enfrentar os desafios da vida. Se aprendem a superar e a conviverem bem com os seus medos, certamente serão corajosos na hora de enfrentarem o chefe, a disputa natural da vida, os concorrentes, os desafios do relacionamento a dois e tudo mais. Uma criança que cresceu com medo é inibida e certamente medrosa para os desafios da vida. Ter medo é natural; não o superar e viver sob proteção excessiva dos pais, não é bom. Por isso, sejamos pedagógicos diante das situações de medo. É bom, cria segurança e autonomia.


segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Pai ou mãe de quem mesmo?



Estamos vivendo em um mundo conturbado. As exigências da época em que vivemos, a pressa, as pressões econômicas e sociais, o momento político que estamos atravessando em nosso país, tudo isso concorre para roubar de nossos filhos um pouco da infância. Se pensarmos que hoje eles vivem “apertados” em apartamentos e de certa forma presos ao mundo digital, aí é que temos mesmo uma enorme perda da qualidade da infância. A Infância tem um ritmo de sonho e uma lentidão própria que a pressa desse mundo contemporâneo acaba acelerando e muito. Sinto que as crianças estão crescendo em um grande “vácuo emocional”, provocado por perda de qualidade de vida no que tange ao relacionamento com amigos e mesmo com as famílias. Tenho percebido que o “espaço Escola” tem sido muito valorizado, pois por mais paradoxal que seja, é na Escola que as crianças estão encontrando espaço para expressarem as suas emoções e, principalmente, brincarem com os colegas.
Estamos em um mundo tão acelerado e terrivelmente pouco vivenciado que a frase mais comum que soltamos é: “Nossa, como a vida está passando tão rápido”!  Essa sensação horrível parece querer dizer, para nós que estamos com pouco tempo para viver, que está nos faltando senso de pertencimento ao tempo. Já imaginou o impacto disso na relação entre os familiares e, principalmente, em nossa relação com os filhos? Eu penso muito nisso...
Às vezes, como adultos, vemo-nos com um pesado fardo emocional às costas. Muito desse peso, às vezes nem nos pertencem, mas somos chamados a carregá-los, como: a doença de nossos pais, um problema no casamento de um irmão, a perda de alguém que amamos, as crises sistêmicas em nossa economia e política, a violência urbana etc. Mergulhados em tudo isso, sentimos uma vontade enorme de pousarmos esse fardo no chão. É preciso fazer isso para olharmos com mais atenção para os nossos familiares diretos. É preciso criar novos padrões emocionais para as nossas vidas, focando principalmente no bem-estar de nossos filhos. Nunca é tarde para se dar um basta. Também nunca é tarde para nós fazermos a seguinte pergunta: estou mesmo satisfazendo as necessidades emocionais de meus filhos? Pergunto-me muito isso e às vezes fico em dúvida com a minha resposta. No dia a dia, me provoco novamente, compartilho com a minha esposa e procuro fazer ajustes. Às vezes, erro de novo. às vezes acerto, o fato é que tentarmos acertar, é o grande desafio.
Somos pais e mães de nossos filhos e vivemos por eles. O tempo todo pensamos na vida deles, no futuro, no que mais podemos fazer para encaminhá-los no “bom caminho” da vida. Afinal, os nossos filhos sempre precisarão de nós, da compreensão e da assistência que lhes pudermos dar. Se nos desentendemos com eles por alguma razão, cabe a nós, pais e mães, o resgate da relação e da confiança. Isso, sem perdermos a paciência e sempre valorizando a condição de sermos o lado maduro dessa relação. Ganhamos muito com isso, pois toda vez que temos sucesso nessa missão, nos sentimos seguros e funcionais em nossa missão de educar e amar. Portanto, vamos valorizar esse momento de entrega e resiliência de nossa parte. Quanto a eles, saibam que estão aprendendo conosco a serem pais e mães no futuro e também a serem esposos e esposas. Ensinamos com exemplos e eles são esponjas que nos secam, hidratando-se em nossas experiências.
Somos, como pais e mães, a força que move a vida de nossos filhos e, por isso mesmo, só seremos de fato importantes na vida deles se formos o porto seguro para se apoiarem. Por isso mesmo, ressalto a importância de nosso papel. A dificuldade da paternidade e da maternidade, reside em parte, em perceber de fato a importância de ocuparmos o papel de pai e de mãe. Não podemos nos refutar e não terceirizar os compromissos vitais que pais e mães devem ter com os seus filhos. Não é bom para eles, que se sintam menos importantes do que os nossos compromissos. Da mesma forma, não é bom que tenham em outros, o espelho que gostariam de ter em casa para se mirarem. Por isso mesmo, é fundamental dar significado à relação pais e filhos e trazer para você o gostoso compromisso de oportunizar felicidade aos seus filhos. Nós, pais e mães, somos sim responsáveis pela felicidade de nossos filhos. Eu sou muito grato por ter esse compromisso.


Bibliografia:

Myla E Jon Kabat – Zinn. Nossos Filhos, Nossos Mestres. Ed. Objetiva. Rio de Janeiro, 1998.


sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Aprendendo a negociar com as crianças


Você já percebeu o quanto as crianças são mestras na arte de negociar? Alguma vez você já parou para pensar no poder que as crianças têm de conseguirem tudo o que elas querem? Não podemos negar que elas costumam ser surpreendentemente eficazes. Na verdade, conhecem artimanhas de negociação que deixa, nós, adultos sem alternativas. Algumas vezes até precisamos, para ter o controle da situação, adotar uma postura de imposição e autoridade, para não sermos “vencidos” pelos argumentos dos pequenos.
Existem coisas que a criança nos ensina de imediato, basta observarmos: ser feliz com qualquer coisa, encontrar-se sempre ocupada com brincadeiras e entretenimento e exigir o que deseja. Portanto, as crianças agem com o emocional do adulto e são formidáveis articuladoras. Dissimulam até conseguir o que querem. Na verdade, é um pouco do instinto primitivo do humano que ainda não foi “educado” em nossos valores e regras sociais.
Aproveitando o conhecimento e habilidades das crianças, temos no mínimo quatro ensinamentos para utilizarmos em nossa rotina diária. Vamos conhecê-los! A primeira habilidade é fazer perguntas. As crianças perguntam muito e não fazem suposições. Querem saber a razão de tudo e são questionadoras, mesmo após já ter passado a fase dos “porquês”. Questionam se não estão convencidas com a resposta, questionam de novo o desconhecido. Diferente disso, os adultos fingem que sabem. Para não ficarem expostos, partem do princípio que já sabem e por isso não devem ficar perguntando. Quando a criança vai crescendo, é fácil observar nas salas de aulas que elas vão perdendo essa habilidade. Parece ser coisa de criança, de imaturidade ficar questionando.  Outra habilidade importante, é saber o valor da insistência. As crianças são insistentes mesmo. Às vezes tornam-se chatas de tanto que insistem. Elas sabem que quanto mais pedirem algo, maior é a chance de se conseguir o que deseja. Os adultos desistem muito fácil. Acham humilhante insistir, pensam que estão “apelando” e por isso não insistem. Obviamente, conseguem menos que as crianças em uma negociação. Outra habilidade é a persistência. Provocadas pelo desejo de aprender algo, elas têm essa habilidade bem desenvolvida. Enquanto não conseguem algo, continuam tentando. Buscam formas diversas de conseguir, focam no desejo. Apelam, choram, fazem birra e muitas vezes o resultado é muito bom. Elas nunca desistem ou entregam os pontos. Elas negociam, trocam o que buscam por promessa de bom comportamento, mas não renunciam.
Claro que aqui, não estamos defendendo a teimosia ou a birra. O que levantamos são habilidades que muitas vezes nós, adultos, não utilizamos. A Psicanálise me ensina muito a pensar. Quando vejo o quanto que cedo a pressão de meus filhos, percebo claramente que são bons nos argumentos. Observando o meu “ceder”, é que comecei a atentar-me para essa reflexão. Precisamos aprender com as nossas crianças. Devemos estar abertos, sim, para a possibilidade de negociar. Se a argumentação for melhor do que a nossa decisão, certamente há possibilidade de estarmos equivocados em nossa decisão. Já pensaram nisso? Se sufocamos e não permitamos que a argumentação delas tenha alguma validade, não estaremos equivocados? Foi assim, que comecei a pensar no tema e observar mais os meus filhos.
É assim. Precisamos aproveitar as habilidades infantis e utilizá-las em nossa maturidade. Imaginem se conseguirmos ser como as crianças na habilidade de convívio social. Brincar, brigar e superar, aceitando o perdão do outro. Não discriminar ou excluir, mas aceitar o outro e suas diferenças. Isso eu aprendi com as crianças. Muitas vezes nós denominamos essa habilidade de “pureza” infantil. “Eles são puros”, costumamos falar. Pois é, devemos pensar mais nisso e voltarmos a ser crianças outra vez.